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Uma ilha que navega o mundo

Foto do escritor: Claudio Girardi
Claudio Girardi
6 de out.
4 min de leitura

Toda vez que alguém descobre que eu tenho um estúdio de animação, a pergunta é sempre a mesma: como é que nasce um personagem? Vem a ideia primeiro, vem o desenho, vem a voz?

É uma boa pergunta. Só que ela não é a pergunta mais importante, e eu levei uns anos e alguns tombos para entender isso. A pergunta que decide o destino de um projeto não é "como nasce o personagem", é "quem é o dono dele quando ele der certo".

Deixa eu te contar como a gente fez, e por que a ordem foi ao contrário do que o bom senso manda.

Quando a Zooparky começou, em 2016, a primeira lição de casa não foi desenhar bicho nem compor tema de abertura. Foi naming e registro das marcas. Antes até de abrir o CNPJ, que só veio em 2017. Parece exagero, e eu sei exatamente como isso soa: um estúdio que ainda era conversa gastando dinheiro com advogado e taxa de registro antes de ter uma única cena pronta.

Mas eu já tinha levado esse tapa antes, na minha própria carreira, com o meu próprio nome. Aprendi na pele que criar sem proteger é construir na areia. Então a gente inverteu de propósito: protege primeiro, cria depois. Nunca teve dúvida sobre quem é dono do quê. Nunca teve aquela conversa constrangedora, dois anos depois, sobre quem tem direito a que percentual de que coisa.

E aqui está o detalhe que muda tudo: essa decisão parece jurídica, mas ela é criativa. Quando você sabe que o que está criando é seu, você cria diferente. Você pensa em universo, não em episódio. Pensa em personagem que aguenta dez anos, não em piada que funciona nessa cena. Pensa em trilha que vai ser reaproveitada, em vozes que precisam funcionar em outra língua, em ativo que vai ser licenciado. A proteção não é uma camisa de força colocada em cima da criação. Ela é o que dá permissão para a criação pensar grande.

Agora deixa eu te mostrar o que a ordem certa produziu na prática, porque eu não gosto de afirmar sem prova.

O universo Zooparky virou 170 episódios de série. Virou o "Quem Sou Eu?", com 52 episódios e 75 videoclipes, que foi para a ZooMoo Kids, para o Rá-Tim-Bum e para a BoxKids. Virou "Ding Ding Pula", com 20 episódios. Virou "Hora da Naninha", com 26 episódios. Em boa parte disso eu acumulei papel de compositor, produtor musical, diretor e criador ao mesmo tempo, o que só é possível quando a casa é sua e você não precisa pedir autorização para cruzar de uma função para outra.

Repara no que aconteceu com a ilha. Ela não ficou parada. Ela navegou. Foi para canal infantil internacional, foi para televisão pública brasileira, foi para plataforma de streaming infantil. E, a cada porto, o que embarcou não foi um episódio avulso. Foi o universo inteiro, com personagem definido, identidade sonora própria, biblioteca de música, direito organizado. É isso que faz a diferença entre vender um produto e licenciar uma propriedade.

Agora a parte honesta, porque não quero te vender facilidade.

Construir IP próprio é o caminho mais lento. Prestar serviço paga mais rápido, com muito menos risco, e não tem nada de errado com isso; eu vivi de prestar serviço por décadas e ainda presto. A diferença é o que sobra depois. Serviço prestado acaba na nota fiscal. IP próprio continua rendendo em licenciamento, em nova temporada, em outro território, em produto derivado, em sincronização de música. Você troca velocidade por acúmulo.

E tem um custo emocional que ninguém menciona: você precisa aguentar meses trabalhando numa coisa que ninguém está vendo, sem retorno, sem aplauso, sem cliente elogiando na sala de reunião. Se você depende de validação externa para continuar, IP próprio vai te derrubar antes do fim do primeiro projeto.

Então, se você está pensando em construir alguma coisa que seja sua, o meu conselho é curto e vai parecer sem graça. Antes de desenhar, antes de compor, antes de escrever a primeira linha do roteiro: defina o nome, registre, e resolva por escrito quem é dono do quê entre as pessoas envolvidas. Faça isso na semana um, quando não vale nada e ninguém liga, e não na semana em que a coisa der certo e todo mundo passar a ligar muito.

Porque quando o projeto dá certo, todo mundo é pai de filho bonito. Filho feio não tem pai nem mãe.

Um grande abraço e bons sons.

Claudio Girardi

Fontes e dados

Acervo citado. Série Zooparky, 170 episódios, com papel criativo múltiplo (música, composição, produção musical e direção). Zooparky "Quem Sou Eu?", 52 episódios e 75 videoclipes, 2019, veiculado em ZooMoo Kids, Rá-Tim-Bum e BoxKids TV. "Ding Ding Pula", 20 episódios, ZooMoo Kids. "Hora da Naninha", 26 episódios, 2023, ZooMoo Kids. Créditos verificáveis em ficha do IMDb e nos créditos em tela dos próprios episódios.

Cronologia da empresa. Início do projeto Zooparky em 2016; registro das marcas antes da constituição da empresa; abertura do CNPJ da Zooparky Entretenimento e Produções Ltda em 2017.

Nota de método. Os números de episódios e os canais acima vêm do inventário interno de acervo do estúdio, conferido contra créditos em tela e fichas públicas. Onde a prova pública ainda está sendo consolidada, o dado não foi usado neste texto.

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