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Esperando um investidor que não vem

  • Foto do escritor: Claudio Girardi
    Claudio Girardi
  • 11 de jul.
  • 4 min de leitura

Já perdi a conta de quantos artistas me disseram, com os olhos brilhando, a mesma frase: "só falta alguém investir no meu trabalho". Falta um investidor, um patrocinador, alguém que acredite, alguém que ponha o dinheiro para a coisa acontecer, porque talento eles têm de sobra. E eu, que já pensei exatamente assim, vou te contar por que esse investidor quase nunca aparece.

Deixa eu te fazer uma pergunta antes, dessas que incomodam: se você, que é o maior interessado na sua própria carreira, não investe nela, por que alguém de fora arriscaria o dinheiro dele? Pensa comigo. Ninguém coloca grana num negócio onde nem o dono botou fé o suficiente para botar o próprio esforço. Querer que o investidor banque tudo enquanto você não entrou com nada é querer pedir esmola com chapéu emprestado. E é aqui que a maioria trava. Fica esperando o cavaleiro de armadura brilhante enquanto entrega um material sem acabamento, sem nome definido, sem nada registrado, sem catálogo organizado, e depois se pergunta por que ninguém apareceu.

Eu vivi isso na pele. Durante um bom tempo eu também achava que precisava encontrar alguém para administrar a minha carreira, que só assim ela ia deslanchar. Até o dia em que eu resolvi tomar o controle e descobri uma verdade dura: eu ia ter que aprender um monte de coisa que eu jurava não ser da minha conta. Administração, finanças, marketing, leis, impostos, direitos autorais, networking. O primeiro empresário da sua carreira tem que ser você. Não tem atalho. Enquanto você terceiriza a responsabilidade, você também terceiriza o resultado.

Mas presta atenção, porque agora vem a parte que muda o jogo. Quando o investidor de verdade aparece, ele não está apostando no seu talento. Talento é o que mais tem por aí, solto, à toa, esperando ser descoberto. O que atrai capital não é talento, é ativo. E ativo é outra coisa: é a obra com nome registrado, com direito claro, com catálogo organizado, com autoria documentada, com uma estrutura que pode ser medida, defendida e vendida. Investidor sério não compra sonho, ele compra fluxo de caixa previsível lastreado em direito.

E não é conversa minha, é o que o mercado está fazendo com cheques de nove zeros. Em 2020, o Bob Dylan vendeu o catálogo das composições dele para a Universal, num negócio estimado entre 300 e 400 milhões de dólares. No ano seguinte, o Bruce Springsteen vendeu a obra inteira, gravações e composições, para a Sony, por cerca de 500 milhões. Repara no que está sendo comprado ali: não é o talento do Dylan nem a garganta do Springsteen, é o ativo, o catálogo estruturado, com direito organizado e receita que se projeta por décadas. O talento eles já tinham em 1965. O que virou meio bilhão de dólares foi a obra tratada como propriedade, com toda a papelada em ordem.

Você vai me dizer: mas Claudio, eu não sou o Dylan. E não precisa ser, porque o princípio é o mesmo em qualquer escala. O jogo que eles jogam no andar de cima é o mesmo que você joga no térreo, só muda o tamanho do cheque. Se lá em cima o capital só senta à mesa com quem estruturou a obra como ativo, por que seria diferente com você? O investidor que você tanto espera está, na verdade, esperando que você faça a sua parte primeiro.

Esta é a diferença entre construir um ativo e construir um sonho bonito e desprotegido. Então a ordem que precisamos ter em mente: estrutura primeiro, obra depois, e nunca teve dúvida sobre quem é dono do quê, quando a conversa vira negócio, você senta à mesa com a papelada na mão, não com um pedido de fé.

Então, o meu conselho, do jeito franco que você já me conhece: para de esperar o investidor. Vira você a primeira pessoa a investir no seu próprio trabalho, e não estou falando só de dinheiro, estou falando de estrutura. Define o nome e registra. Organiza o catálogo. Resolve os direitos na fase da criação, não no dia do problema. Documenta autoria. Faça isso e você deixa de ser um talento à espera de alguém e passa a ser um ativo que atrai gente. O investidor não vem porque você é talentoso. Ele vem porque você é dono de alguma coisa que dá para medir, defender e crescer.

Um grande abraço e bons sons.

Claudio Girardi

Fontes e dados

Bob Dylan, composições (2020). Venda do catálogo de composições para a Universal Music Publishing, em dezembro de 2020, com valor estimado entre 300 e 400 milhões de dólares pela imprensa especializada. Em 2021, Dylan vendeu também o catálogo de gravações para a Sony (estimado entre 150 e 200 milhões).

Bruce Springsteen (2021). Venda de composições e gravações para a Sony Music, em dezembro de 2021, por valor reportado em torno de 500 milhões de dólares. Parte de uma onda de aquisições que passou a tratar catálogos musicais como ativos financeiros.

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