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O erro do nome

  • Foto do escritor: Claudio Girardi
    Claudio Girardi
  • 11 de jul.
  • 5 min de leitura

Vou te contar uma coisa que pouca gente sabe, só os amigos mais próximos e as empresas na hora de fechar contrato: Claudio Girardi é o meu nome artístico. Meu nome de registro é Claudio Girardi Utishiro. E já sei o que vem na sua cabeça agora, esse Utishiro é o quê, japonês, e por aí vai. Pois é exatamente esse o problema, e é sobre ele que eu quero falar.

No começo da carreira eu assinava Claudio Utishiro. Toda apresentação virava a mesma cena: a pessoa parava no sobrenome, perguntava a origem, eu tinha que explicar. Levei uns dois anos para cair a ficha de que aquilo, por mais que eu tenha orgulho da minha família, estava me atrapalhando do ponto de vista de marketing pessoal. Adotei só o sobrenome do meio, Girardi, e pronto, problema resolvido. Quase. Até hoje, em imigração de aeroporto, o agente olha o passaporte, olha para mim, e faz a mesma cara. A diferença é que agora isso é anedota, não obstáculo de carreira.

Por que eu abro a coluna com uma bobagem dessas? Porque um nome não é um detalhe. Um nome é a primeira mensagem que você entrega ao mercado, antes da sua música, antes do seu trabalho, antes de qualquer coisa. E existem três armadilhas nessa escolha que eu vi derrubarem gente boa.

A primeira é o nome que precisa de explicação. Se você tem que explicar por que a sua banda se chama assim, é sinal de que a mensagem não está clara, e você já larga atrás dos concorrentes. Foi literalmente o meu caso.

A segunda é o nome com significado escondido. Hoje, com todo mundo digitando qualquer coisa no Google, escolher um nome que quer dizer algo constrangedor em outra língua, ou na própria, é tiro no pé. Imagine um apresentador estrangeiro anunciando a sua banda no horário da manhã e travando no nome. Essa entrevista não acontece.

A terceira é a mais cara de todas, e é aqui que eu quero chegar: o direito de usar o nome. Lembra do Jota Quest? No início eles eram J. Quest, uma homenagem ao desenho Jonny Quest, da Hanna-Barbera, de 1964. Os detentores dos direitos do desenho notificaram a Sony Music, gravadora da banda, pelo uso não autorizado do nome. Os advogados perceberam que o nó estava no "Jonny", e a saída foi virar Jota Quest, que preservava a referência sem esbarrar na marca registrada. Trocar de nome no meio do caminho, quando você já construiu público, é trocar de marca no meio da corrida. Dá prejuízo, pode virar processo, e joga fora anos de reconhecimento que você suou para conquistar.

Por isso eu costumo dizer uma frase que incomoda muita gente: registrar um nome é investimento, não custo. Você vai carregar esse nome por muitos anos, talvez a vida inteira. Gastar com o registro legal lá no começo, quando ninguém ainda te conhece e parece dinheiro jogado fora, é o que garante que, no dia em que o nome valer alguma coisa, ele seja seu de verdade, e não emprestado.

E é aqui que eu conecto isso com a casa que eu ajudei a construir. Quando a gente fundou a Zooparky, a primeira lição de casa não foi desenhar personagem nem compor música. Foi o naming e o registro das marcas, antes mesmo de abrir o CNPJ da empresa. Parece exagero para um estúdio que estava nascendo de uma conversa. Não é. É o oposto do erro que eu tinha cometido na minha própria carreira anos antes. Aprendi na pele que criar sem proteger é construir na areia, então na Zooparky a gente inverteu a ordem: protege primeiro, cria depois, e nunca teve dúvida sobre quem é dono do quê.

Deixa eu fechar com o caso que resume tudo. Em 1997, o David Bowie fez uma das jogadas mais espertas da indústria. Junto com o banqueiro David Pullman, ele emitiu títulos lastreados nos royalties de 25 álbuns e 287 músicas que tinha gravado antes de 1990, e levantou 55 milhões de dólares de uma vez, comprados pela seguradora Prudential, com juros de 7,9% ao ano e prazo médio de dez anos. Foi a primeira vez que alguém securitizou direitos de propriedade intelectual desse jeito, e depois vieram outros, como James Brown e os Isley Brothers. Bowie usou o dinheiro para recomprar músicas que estavam nas mãos do antigo empresário. Repara no que aconteceu ali: a obra dele não era só arte, era ativo, com nome registrado, catálogo organizado e direito claro. E ativo, diferente de talento solto, você mede, defende e transforma em valor.

E vou ser honesto para não te vender ilusão. Anos depois, quando o MP3 e a pirataria derrubaram a venda de discos, a Moody's rebaixou esses títulos, quase ao nível de investimento especulativo. Ou seja, nem ativo é blindagem contra o mundo mudar. Mas repara numa coisa: só quem tem a obra estruturada como ativo senta nessa mesa. Quem não tem, nem é convidado.

Você não precisa ser o Bowie para começar. Precisa entender que o nome que você escolhe hoje, e o registro que você faz ou deixa de fazer, é a fundação de tudo que vem depois. Escolha um nome que fala por si. E, por favor, registre antes de se apaixonar por ele.

Um grande abraço e bons sons.

Claudio Girardi

Fontes e dados

Bowie Bonds (1997). Emitidos em 1997, estruturados pelo banqueiro David Pullman e comprados por US$ 55 milhões pela Prudential Insurance Company of America, com juros de 7,9% ao ano e vida média de dez anos, lastreados nos royalties de 25 álbuns (287 músicas) gravados antes de 1990. Considerada a primeira securitização de direitos de propriedade intelectual, seguida por catálogos de James Brown, Ashford & Simpson e Isley Brothers. Anos depois, a Moody's rebaixou os títulos de A3 para Baa3 diante da queda de vendas provocada pela pirataria de MP3.

Jota Quest / J. Quest. A banda nasceu como J. Quest, em referência ao desenho Jonny Quest (Hanna-Barbera, 1964). Os detentores dos direitos notificaram a Sony Music, gravadora da banda, pelo uso não autorizado; a solução foi adotar Jota Quest. Nota de transparência: um relato do mercado (Whiplash, citando o produtor Fabra) sugere que a história possa ter tido componente de marketing do empresário da época, embora as fontes principais confirmem o conflito de direitos.

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