O personagem que a gente pega na mão

Na prateleira do estúdio tem um tigre de braços cruzados, com cara de quem já sabe a resposta antes de ouvir a pergunta, e ao lado dele um papagaio que parece estar pensando três vezes antes de dar um passo. São o Tig e o Pap, impressos em 3D com filamentos de várias cores na mesma peça, sem nenhuma pintura depois. O detalhe curioso é que a série deles ainda não entrou em produção.
Neste ano a Zooparky foi expositora na Licensing Con Latam 2026, a feira de licenciamento de marcas e personagens em São Paulo, e levamos os dois para o nosso espaço. Vários visitantes se aproximaram para ver de perto aqueles personagens impressos, e muitos pegaram na mão para sentir o acabamento e entender como a cor tinha saído pronta da impressora. Teve quem quisesse comprar os dois para dar de presente, acreditando que eram só uma peça decorativa. Teve quem perguntasse quem tinha modelado os personagens, porque tinha gostado do estilo visual. E quase ninguém perguntou se existia um filme ou uma série deles.
Saí da feira com a resposta para uma pergunta que já me fizeram algumas vezes, sobre por que a gente faz a estátua antes do desenho. O objeto chegou antes da história e se sustentou sozinho, e o resto deste texto tenta explicar por que isso vale tanto.
Uma ilha inteira para além da tela
Tig e Pap são os detetives de uma ilha onde vivem todos os animais do mundo, da maior baleia à menor formiga. Criei a série com o Sergio Martinelli para a primeira infância, a idade em que a criança aprende a olhar o mundo com atenção. Cada mistério se resolve com cores, formas, tamanhos e direções, e no meio da aventura entram as coisas que não se ensinam em lista: companheirismo, paciência com quem é diferente de você, ajudar quem se meteu em enrascada.
Quando a gente cria um universo assim, ele precisa caber em mais lugares do que a tela. Por isso a gente pensa o personagem inteiro desde o começo, inclusive o corpo físico dele: como ele fica de pé numa estante, qual é o gesto que conta quem ele é sem precisar de fala, qual é o tamanho que cabe na mão de um adulto e na prateleira de uma casa. O Tig de braços cruzados e o Pap desconfiado nasceram dessas perguntas.
Esse corpo físico tem um processo próprio aqui dentro. Além da modelagem de personagem para animação, com rig e tudo o que a tela pede, a gente modela cada personagem pensando também no objeto e prepara arquivos de impressão sob medida para uma impressora que trabalha com filamentos de várias cores na mesma peça. A cor sai pronta da impressora, e o que o público vê na estante é o resultado direto da impressão. Depois a gente pega a peça na mão e ajusta a arte e a anatomia, porque tem coisa que só se percebe quando o personagem gira entre os dedos. Fazemos isso porque queremos sentir os nossos personagens do jeito que eles vão existir no mundo real, e porque temos por eles um carinho que não cabe só no arquivo digital.
O que a mão faz com a cabeça
Tem uma pesquisa de que eu gosto muito, de duas professoras de marketing americanas, Joann Peck e Suzanne Shu, publicada em 2009 no Journal of Consumer Research. Elas mostraram que o simples toque em um objeto aumenta a sensação de que ele é seu, e que isso faz a pessoa aceitar pagar mais por ele. Não precisa comprar, nem levar para casa: o toque já começa a transferir a posse, pelo menos na cabeça de quem toca.
Pense no que isso significa para um personagem. Enquanto um desenho na tela continua sendo de quem o fez, uma estátua na mão começa a ser um pouco de quem a segura. E quando o personagem chega ao público primeiro como objeto, a relação começa pela parte mais difícil de conquistar, que é esse sentimento de pertencimento.
O adulto também brinca
Tem gente que ainda acha que brinquedo e colecionável são assunto só de criança, mas os números contam outra história. Nos Estados Unidos, segundo a Circana, a venda de brinquedos para pessoas de 18 anos ou mais cresceu 18% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, e os brinquedos licenciados já somam 37% de tudo o que se vende no mercado de lá.
Aqui no Brasil a gente tem um exemplo que todo mundo conhece. A Mauricio de Sousa Produções levou a Turma da Mônica para a decoração de casa adulta, em parceria com a Tok&Stok, e para a CCXP, que é território de fã adulto. O personagem que acompanhou a infância de muita gente continua morando na vida dessa gente depois que ela cresce.
Vi isso de perto na feira: quem quis levar o Tig e o Pap de presente enxergou neles uma peça de decoração para um adulto, antes de saber que eram personagens de uma série para crianças. É esse o caminho que me interessa, e é o cuidado que a gente leva para cada personagem: criar um IP capaz de dialogar com dois públicos ao mesmo tempo, com a criança, que aprende com ele, e com o adulto, que reconhece nele um valor e confia nele para os seus filhos.

Onde a marca entra
Aqui está a parte que mais me anima nas conversas com marcas. Os valores do Tig e do Pap, olhar com atenção, trabalhar em dupla com quem pensa diferente e ajudar quem precisa, são valores que muita empresa escreve na parede da sala de reunião. Só que valor escrito na parede ninguém pega na mão.
Um personagem físico resolve isso. Imagine uma edição de colecionável assinada junto com a marca, entregue a clientes, a parceiros ou ao time, carregando uma causa que a empresa já defende. Imagine o personagem na mesa do evento, no ponto de venda, no kit de quem acabou de entrar na empresa. Cada um desses objetos vira prova de marca, porque mostra, sem precisar de discurso, que aquela empresa se associou a uma obra que ensina uma criança a olhar melhor o mundo.

E a porta não fecha no objeto. A marca que chega agora participa de perto dos valores que vai emprestar dos personagens e do universo, com a garantia de estar ao lado de quem está criando e construindo cada um deles. É um tipo de proximidade que dificilmente uma marca consagrada oferece a quem licencia os seus personagens.
Tig e Pap estão aprovados para captação pela Lei do Audiovisual, na ANCINE, e pelo ProAC ICMS, em São Paulo, e isso muda a conta para quem quer se associar a um personagem. Pense no caminho tradicional: licenciar um personagem que já tem tração de mercado costuma envolver um adiantamento na assinatura do contrato, uma garantia mínima que se paga vendendo ou não, e royalties sobre cada venda, e mesmo assim a marca chega a um universo que já está pronto, com a história escrita por outras mãos. Com um IP aprovado nas leis de incentivo, a empresa pode entrar antes, quando o universo ainda está sendo construído, e associar o nome a esses valores usando imposto que ela já pagaria. Quem entra no começo ajuda a construir a origem do personagem, e origem é a parte da história que o público mais gosta de contar. Sempre vale alinhar os limites de dedução e as contrapartidas com o time fiscal e jurídico antes de fechar.
O cuidado de que eu não abro mão
Levar um IP infantil para o universo adulto pede dois cuidados. O primeiro é com quem a conversa acontece. No Brasil, a Resolução 163 do Conanda considera abusiva a publicidade dirigida à criança, e eu concordo com o espírito dela. O colecionável e a ação de marca falam com o adulto, que decide, e a série fala com a criança, que aprende. Misturar os dois é o jeito mais rápido de perder a confiança da família.
O segundo cuidado é a coerência. Valor emprestado precisa combinar com quem empresta. Uma marca que quer falar de atenção e de cuidado com o outro encontra no Tig e no Pap um par natural. Uma marca que não vive esses valores vai parecer fantasiada, e fantasia o público percebe de longe.
O que essas pessoas vão contar
Volto à feira. As pessoas que pararam diante do Tig e do Pap ainda não sabem o que os dois fazem numa ilha cheia de animais. Quando a série estrear e elas encontrarem a dupla na tela, vão ter uma história que nenhum anúncio compra: eu já vi esses personagens de verdade, toquei neles numa feira de licenciamento, peguei na mão os protótipos. Quem conta isso se sente parte da origem do personagem, e é muito desse sentimento que nasce um fã.

O personagem que a gente pega na mão entra em casa antes da série.
E você, qual foi o personagem da sua infância que ainda mora na sua estante?
Um grande abraço e bons sons.
Claudio Girardi
Fontes
Joann Peck e Suzanne B. Shu, "The Effect of Mere Touch on Perceived Ownership", Journal of Consumer Research, v. 36, n. 3, 2009, p. 434-447: https://academic.oup.com/jcr/article-abstract/36/3/434/2900262 · resumo: https://www.sciencedaily.com/releases/2009/03/090331112723.htm
Circana, "US Toy Market is Growing in 2025": https://www.circana.com/post/us-toy-market-is-growing-in-2025-circana-reports
Consumidor Moderno, "Turma da Mônica para adultos: a reinvenção de Mauricio de Sousa", 26/07/2017: https://consumidormoderno.com.br/2017/07/26/turma-da-monica-para-adultos-reinvencao-de-mauricio-de-sousa
Resolução Conanda nº 163, de 13/03/2014: https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-163-_publicidade-infantil.pdf
Licensing Con Latam 2026, lista de expositores (Zooparky): https://licensingcon.com.br/lista-expositores/
ABRAL, Manual do Licenciamento (royalties, adiantamento e garantia mínima): https://abral.org.br/wp-content/uploads/abral-manual-do-licenciamento.pdf
Lei 8.685/1993, Lei do Audiovisual: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8685compilado.htm
Secretaria da Cultura de São Paulo, ProAC ICMS: https://www.cultura.sp.gov.br/sec_cultura/Fomento/ProAC_ICMS

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