O bloco que a faculdade não dá: música, direitos e IA

Ontem à noite eu estive na Faculdade Metodista de São Bernardo do Campo, com uma turma de publicidade, audiovisual e jornalismo, para falar de uma coisa que eu faço há muito tempo: música para publicidade, cinema e animação, e o que acontece com o dinheiro dela.
Comecei tocando quatro trechos, sem imagem e sem contexto. Uma abertura de TV aberta, uma série infantil de animação, um longa que está em catálogo de streaming e um filme publicitário de marca grande. Pedi que levantassem a mão quem reconhecia. Várias mãos subiram. Aí eu disse que os quatro eram meus, e ninguém sabia o nome de quem fez.
Essa frase é o assunto inteiro. Reconhecer não é saber de quem é.
O que a música faz que a imagem não faz
A mesma cena, com quatro trilhas diferentes, vira quatro filmes diferentes. A música não acompanha a cena, ela decide o que a cena significa.
Cada território usa isso de um jeito. Na publicidade são trinta segundos para produzir memória de marca, e a música é o que sobra depois que o anúncio acaba. No cinema são duas horas para construir um tema e devolvê-lo transformado no terceiro ato. Na animação a trilha carrega o peso dramático que o desenho não sustenta sozinho, e ainda precisa aguentar centenas de episódios sem cansar.
No jornalismo esse poder aparece de um jeito que costuma passar despercebido. A trilha que entra embaixo de uma reportagem diz ao público como se sentir antes mesmo de a primeira fala terminar. Cordas graves transformam uma entrevista em denúncia. Um piano sozinho transforma a mesma entrevista em tragédia pessoal. Uma batida seca transforma em escândalo. O texto pode estar impecavelmente apurado, com os dois lados ouvidos e nenhum adjetivo fora do lugar, e ainda assim a música entrega um juízo que o repórter não escreveu. Na redação, adjetivo carregado é cortado e enquadramento tendencioso é discutido, enquanto a escolha da trilha costuma ser feita na hora do fechamento, por critério de combinar com a cena. Escolher a trilha de uma reportagem é decisão editorial, e não decoração: é por ali que a opinião entra na matéria sem passar por nenhuma edição.
Como o dinheiro chega
Este é o bloco que quase nenhum curso dá, e é o que muda a carreira de quem entende.
Comece pelos quatro papéis que quase todo mundo confunde. O autor é quem compôs, titular do direito de autor sobre a obra musical. A editora administra essa obra, licencia, cobra e recebe um percentual do que o autor ganha. O produtor fonográfico é quem pagou a gravação e é titular do fonograma, que é coisa diferente da obra. O intérprete é quem executou, titular de direito conexo sobre aquela gravação. A mesma música pode ter quatro donos diferentes de quatro coisas diferentes.
Depois entenda que o dinheiro chega por dois caminhos independentes. A execução pública acontece quando a música toca em rádio, TV, show, bar, streaming ou cinema, e no Brasil quem arrecada e distribui é o ECAD, através das associações; isso não se negocia caso a caso. A sincronização é casar música com imagem, e exige licença negociada peça a peça, com preço, prazo, território e mídia definidos. É aí que a publicidade compra, e é aí que nasce o passivo quando ninguém checou a titularidade. Ter um caminho não dispensa o outro.
E no meio dos dois está a cuesheet, o documento em que o audiovisual declara qual música tocou, por quanto tempo e em que função. Sem ela, a obra tocou, a emissora pagou, e o dinheiro não encontra o dono. Quem preenche é a produção, não o compositor, e por isso é assunto de quem faz audiovisual. Existe o formato do ECAD no Brasil e existem formatos internacionais quando a obra circula fora. Campo errado é dinheiro perdido.
Para fechar o argumento eu contei uma cicatriz. Um longa com trilha minha, distribuído por gente grande e hoje em catálogo de streaming, teve o campo de compositor ocupado por outro nome na ficha pública. Eu assinei a trilha, e mesmo assim eu não constava. O registro é o que existe. A memória não conta, e o crédito na tela não se defende sozinho.
Registro de obra, registro de fonograma e cuesheet correta parecem burocracia de fim de projeto, e são o que faz o dinheiro te encontrar meses depois, quando a música toca num lugar onde você não está para explicar quem você é. Sem esses documentos a obra circula, o pagador paga e o valor fica parado esperando alguém provar que é dono. Com eles, o trabalho que você já entregou continua rendendo sozinho.
Registrar é investimento, e não custo.
O dinheiro invisível
Em 2025 o ECAD arrecadou R$ 2,1 bilhões e distribuiu R$ 1,7 bilhão a titulares, com alta de 15% na arrecadação e o digital respondendo por cerca de um terço do total.
Nenhum desses reais chega a autor nenhum sem documento: registro de obra, registro de fonograma e cuesheet correta. É um mercado bilionário movido a planilha, e sobre essa planilha nenhum dos três cursos que estavam na sala dá uma aula sequer.
O que a IA mudou de verdade
Aqui eu evito a demonstração deslumbrada e o discurso apocalíptico, porque a plateia já viu os dois e não acredita em nenhum.
Em julho de 2026 a Deezer informou que faixas inteiramente geradas por IA passaram de 50% de tudo o que é enviado para a plataforma por dia, algo em torno de 90 mil faixas diárias, enquanto essas faixas respondem por uma fração pequena dos streams. A mesma plataforma detectou milhões de faixas geradas por IA associadas a fraude de streaming.
Na aula, esse ponto ficou claro em duas perguntas. A primeira foi quem contrataria uma música gerada por inteligência artificial para um trabalho, e várias mãos subiram. A segunda foi quem assinaria embaixo, num contrato de campanha nacional, garantindo que aquele material não infringe obra de terceiro, e ninguém levantou a mão. A distância entre as duas perguntas é a aula inteira.
A leitura que eu levo disso é a seguinte. Produzir música ficou tão rápido e tão barato que já não exige um músico nem um compositor treinado, e uma trilha genérica vai virando commodity, com oferta praticamente infinita e preço em queda. O que ficou escasso mudou de lugar.
Hoje o ativo raro é alguém que responda, com segurança e por escrito, de quem é aquela obra, de onde ela veio e o que entrou nela. Alguém que saiba limpar a titularidade antes da entrega, que documente a cadeia de direitos durante a produção e que sustente essa resposta quando o comprador auditar, quando o contrato exigir garantia de não infração ou quando a coisa der errado. Gerar está ao alcance de qualquer um; garantir procedência continua dependendo de quem estudou o assunto e assume o risco junto com o cliente. É esse trabalho que segue sendo pago, e é ele que o currículo dos três cursos ainda não forma.
E existe uma conta que ninguém pagou ainda. O PL 2338, o marco legal da inteligência artificial, foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e seguiu para a Câmara, onde passou por comissão especial e audiências sem votação final. Em maio de 2026, mais de cinquenta entidades de cultura, música, audiovisual e jornalismo reagiram à possibilidade de o texto perder o capítulo de direitos autorais. Enquanto isso não fecha, cada peça gerada por IA circula sem regra fechada sobre uso de obra protegida em treinamento, e o risco contratual fica com quem assina a peça. Se der errado, quem paga é o cliente.
Na voz o assunto está ainda mais quente. Clonagem sem consentimento, sem contrato e sem cachê já aparece em locução, narração, podcast e dublagem, com audiências na Câmara e na Assembleia Legislativa de São Paulo, e projetos em tramitação que tratam a voz como dado sensível e mexem em direitos conexos. É o primeiro emprego real de muita gente formada nesses cursos, e é exatamente ali que a substituição já está acontecendo.
Onde está a vaga
Agências e produtoras estão internalizando IA e criando cargo para isso. O que está sobrando é vaga de quem governa o uso, e não de quem opera a ferramenta, porque operar a ferramenta o próprio cliente já faz sozinho.
Para quem vem da publicidade, o cargo é governança de uso de IA: quem define o que pode ser gerado, com qual ferramenta, com qual rastro e sob qual garantia contratual para o cliente. Para quem vem do audiovisual, é supervisão musical e coordenação de direitos: escolher a música, limpar a titularidade, negociar a sincronização, entregar a cuesheet correta e responder pelo que entrou na obra. É função de responsabilidade, e não de execução, e é por isso que a IA não substitui. Para quem vem do jornalismo, a pauta de propriedade intelectual e IA hoje é coberta por generalista, e por isso é coberta mal; quem entender titularidade, treinamento e remuneração vira a referência da redação nesse assunto, e a apuração de áudio sintético vai virar rotina de checagem do mesmo jeito que imagem manipulada virou.
O fecho
No estúdio, a nossa resposta a isso é um pipeline que roda em casa, com o material de treino e o personagem sob controle, e com rastreabilidade de quem gerou o quê, com qual base e em que data. Usar IA é fácil. Usar IA sem entregar o próprio ativo é que é o projeto.
No mercado só existem dois tipos: quem dá lucro e quem dá prejuízo. A IA acabou de mudar de lado quem estava no meio.
Um grande abraço e bons sons.Claudio Girardi
Fontes
ECAD, distribuição de 2025 e Relatório Anual 2025: https://www4.ecad.org.br/noticias/ecad-distribui-r-17-bilhao-em-2025-e-tem-alta-de-15-na-arrecadacao/
Deezer Newsroom, julho de 2026: https://newsroom-deezer.com/2026/07/ai-music-exceeds-50-percent-daily-uploads-deezer/
Cobertura do mesmo dado: https://techcrunch.com/2026/07/21/music-streamer-deezer-says-more-than-50-of-daily-uploads-are-ai-generated/
PL 2338/2023, tramitação no Senado e na Câmara dos Deputados.
Reação de entidades de cultura ao substitutivo, maio de 2026, cobertura da Tela Viva.


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