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O disco brasileiro que rodou o mundo

Foto do escritor: Claudio Girardi
Claudio Girardi
1 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 3 de set.

Vou te contar uma história de um disco meu que você provavelmente nunca ouviu, e que ao mesmo tempo talvez você já tenha ouvido dezenas de vezes sem saber.

Ele não tem capa com o meu rosto, não tocou em rádio, não teve show de lançamento. Chama "Pure Brazilian Beats", saiu por um selo inglês, a Zero-G, e não foi feito para o público. Foi feito para produtores musicais, arranjadores e DJs do mundo inteiro. É um disco de samples: levadas de samba, bossa, baião, frevo, axé, ijexá, xote, gravadas para que outra pessoa construísse a própria música em cima delas.

Antes de fazer, passei três anos pesquisando ritmos brasileiros junto com o baterista Duda Moura. Três anos. Não é figura de linguagem, é o tempo que levou entre entender que existia um buraco no mercado mundial e ter material bom o suficiente para preencher. Eu já trabalhava com produção musical, de tempos em tempos eu mesmo precisava gravar alguma trilha ou jingle com ritimos brasileiros, e para isso eu precisava contratar um time de músicos, percussionistas, e percebi uma coisa simples, para outros ritimos, estilos existim muitos discos de samplers para produtores, DJs, mas olhando o mercado de fora: o mundo inteiro queria som brasileiro, inclusive eu mesmo, e quase ninguém tinha material brasileiro de verdade para trabalhar. Tinha imitação, tinha aproximação, tinha o clichê. Não tinha a coisa tocada por quem cresceu dentro dela.

E aqui vem a parte que interessa para você, que não é a parte bonita.

A gente gravou uma boa parte, montou uma demo e mandou para gravadoras do Japão, dos Estados Unidos, do Canadá, da França e da Inglaterra. Recebemos sim de todas. Cem por cento de aprovação. Um projeto sem nenhuma recusa, coisa que quase nunca acontece

na vida de ninguém.

E aí a gente jogou fora e regravou tudo de novo.

Isso mesmo. Depois de todos aprovarem. Regravamos o projeto inteiro para ter uma qualidade acima da que já tinha sido aceita, e chamamos outro produtor, amigo nosso, o Mad Zoo, com mais estrada no mercado do Reino Unido, para mixar e masterizar. Eu já tinha gravado, produzido, editado, mixado e masterizado. Estava aprovado para fabricação. E a gente decidiu que dava para ser melhor.

Por que fazer isso? Porque um disco de samples não é um job que acaba quando a nota é paga. É um produto que fica no catálogo. Se eu entregasse o suficiente, ele venderia um pouco e sumiria. Se eu entregasse o melhor que eu conseguia, ele teria vida longa. E eu queria a vida longa.

Você quer saber se funcionou? O "Pure Brazilian Beats" está no catálogo da Zero-G até hoje. (https://zero-g.co.uk/products/pure-brazilian-beats?srsltid=AfmBOop2RViZ7CzRMZEyuoAgbId_TyxaFyDrAZdTqYjXN4LNGwLTWnCL) Você pode abrir o site, ver o produto, ouvir a demo, ler a descrição com o nome do Duda creditado nela. Ele passou por revendedor inglês, americano e japonês. Continua ali, comprável, quase duas décadas depois de eu ter saído do estúdio onde ele foi feito.

Repara no que isso significa na prática. Um trabalho de publicidade que eu fiz na mesma época me pagou uma vez e acabou. O disco de samples me pagou, entrou num catálogo internacional e continua existindo como produto sem que eu precise fazer nada. A diferença entre os dois não está no talento envolvido. Está na natureza do que foi entregue: um era serviço, o outro era ativo.

E teve o preço do silêncio, que é a parte que ninguém conta. Eu e o Duda passamos meses trancados em estúdio. Viramos o Natal e o Ano Novo editando e mixando sampler. Ninguém no mercado sabia o que a gente estava fazendo. Depois de entregar a matriz, a gravadora levou cerca de um ano para lançar. Somando tudo, ficamos praticamente dois anos calados sobre esse projeto. As pessoas só souberam quando o produto foi lançado e saíram as primeiras matérias nas revistas especializadas lá fora.

Duas das minhas regras de carreira nasceram exatamente aí. A primeira: só conto com o dinheiro que está disponível na minha conta. A segunda: só falo para as pessoas e para a imprensa aquilo que já está concluído e sacramentado em contrato. Nada de "estou negociando com", nada de "vai sair pela". Enquanto não saiu, não existe. Isso vale para o mercado e vale dentro de casa.

É uma regra chata? É. Ela custa aquele prazer de contar a novidade quente. Mas ela protege a única coisa que você não recompra depois de perder, que é a sua credibilidade. Ansiedade é o que faz banda iniciante soltar material ruim na internet e o que faz profissional bom anunciar negócio que ainda não fechou. Nos dois casos, o público desconta depois.

Então, o que eu quero que você leve deste texto: quando estiver criando alguma coisa, pergunte-se se está entregando um serviço ou construindo um ativo. Serviço termina no pagamento. Ativo entra num catálogo, continua sendo consultado, continua sendo licenciado, continua existindo depois que você foi embora da sala. Os dois são trabalho honesto e os dois pagam contas. Só que um deles ainda vai estar lá daqui a vinte anos, e o outro não.

Um grande abraço e bons sons.

Claudio Girardi

Fontes e dados

Pure Brazilian Beats, Zero-G. Produto no catálogo da Zero-G, com o crédito literal "performed & recorded in Brazil by session musician Duda Moura". 194 loops, entre 58 e 154 BPM, com sessões de samba, samba carnavalesco, axé, baião, bossa nova, frevo, ijexá, samba funk e xote, nos formatos ACID/WAV, REX2 e Apple Loops.

Site de Duda Moura, que lista o título: https://www.dudamoura.com/

Zero-G. Selo britânico fundado em 1990 por Ed Stratton e Julie Stratton, constituído como Zero-G Ltd no início de 1992. Seus Datafiles são reconhecidos como referência na formação do som do house e do drum'n'bass britânicos.

"10 classic sample packs that changed electronic music", MusicRadar: https://www.musicradar.com/news/10-classic-sample-packs-changed-electronic-music-1

Nota de transparência. O ano exato de lançamento e o preço de catálogo da época não estão documentados em fonte pública que eu tenha localizado, e por isso não são afirmados aqui como dado. O registro público mais antigo que encontrei do título é de abril de 2006, numa nota da KVR Audio sobre a coletânea Total REX: https://www.kvraudio.com/news/zero_g_announces_total_rex_5075

Licenciamento buyout. O modelo de sample library é de pagamento único por uso ilimitado, sem royalty adicional mesmo em obra de grande sucesso, com a restrição central de não reempacotar os samples dentro de outra biblioteca. Faixa de preço documentada para sample CDs de áudio no fim dos anos 1990: de 19,95 a 59,95 libras.

Sound On Sound, questões legais no uso de samples: https://www.soundonsound.com/people/legalcopyright-issues-when-using-samples

Sound On Sound, "Sample Shop's Golden Greats", setembro de 1997: https://www.soundonsound.com/reviews/sample-shops-golden-greats

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