Da guitarra de trastes de latão ao mercado internacional


Minha primeira guitarra se chamava Jenifer e tinha trastes de latão. Comprei juntando mesada com dinheiro de presente de Natal dos parentes. Meu professor de guitarra tinha uma Ibanez Roadstar II. Você que é músico já entendeu o tamanho do desespero.
Com o tempo juntei mais dinheiro e comprei uma Telecaster. Agora sim, pensei, eu tenho uma guitarra profissional. E aí veio a descoberta constrangedora: eu tinha uma guitarra profissional e tocava como amador. Fiz o investimento certo na ferramenta e não tinha feito investimento nenhum em mim. Eu era preguiçoso.
Preguiçoso mesmo. Como era só uma banda cover de garagem, eu não tirava as linhas de guitarra direito, não tirava as harmonias direito, e ficava sempre para depois, porque a gente estava se divertindo. Fui demitido de duas bandas antes de a ficha cair. Duas. Não foi uma epifania bonita num fim de tarde, foi levar o pé duas vezes.
Aí eu entendi que se quisesse mesmo viver disso teria que me esforçar acima da média, não na média. Comecei a estudar de oito a dez horas por dia. Estudar de verdade. Eu levava a guitarra até para o banheiro.
Quero parar aqui um segundo, porque essa é a parte que costuma ser contada errada.
Ninguém sai da preguiça por motivação. Sai por consequência. Eu não acordei inspirado, eu fui demitido. E o que veio depois não foi paixão renovada, foi rotina chata e repetitiva por anos a fio. Isso é o que separa quem vive de música de quem gosta muito de música, e é uma diferença que quase nunca aparece nas entrevistas.
O segundo salto veio de um incômodo, não de um plano. Tocando cover, eu tinha que reproduzir os timbres exatamente como das gravações originais, os solos idênticos, cada inflexão. Com o tempo aquilo começou a me entediar. Eu queria um som meu, um jeito meu, um timbre que fosse só meu. E aí descobri um problema prático: para desenvolver um som próprio eu precisava de música própria. Foi assim que comecei a compor, não por vocação declarada, por necessidade técnica.
Compor me levou a querer gravar bem. Gravar bem me levou à produção musical. A produção me levou à música para publicidade, que foi a escola mais dura e mais útil que eu tive, porque em publicidade você aprende a produzir qualquer estilo, com prazo curto, para um cliente que não quer saber da sua identidade artística. Do rock ao pop, do eletrônico ao industrial, do brega ao jazz. Compunha, arranjava, gravava, mixava, todo dia, durante anos. Como piloto acumulando hora de voo, eu acumulei tempo de estúdio. Foram, com segurança, mais de dez mil horas.
E foi essa base, e só ela, que me tirou do país.

A ordem foi essa: Brasil primeiro, produzindo artistas independentes e trabalhando com publicidade. Depois Londres, com o disco de samples de ritmos brasileiros pelo selo inglês Zero-G. Foi esse disco que abriu a porta de Angola, onde passei a trabalhar com mais de quarenta artistas locais. Depois Estados Unidos. Depois a volta ao Brasil, agora no audiovisual, com filmes e publicidade. E em 2016 começa a Zooparky.
Repara que não tem nenhum atalho nessa lista. Não tem o produtor famoso que me descobriu, não tem o vídeo que viralizou, não tem a sorte grande. Tem uma coisa levando à outra porque a anterior foi bem feita. O disco de samples não caiu do céu: ele existiu porque eu tinha dez anos de estúdio nas costas para reconhecer um buraco no mercado mundial e capacidade técnica para preencher. Angola não caiu do céu: ela veio porque o disco existiu.
Isso tem um nome pouco romântico: composição. No sentido financeiro mesmo, de juros compostos. Cada trabalho bem feito não te paga só o cachê dele, ele te credencia para o próximo, que é maior. E cada trabalho mal feito não te custa só aquele cachê, ele fecha uma porta que você nem sabe que existia.
Um contratante meu em Angola resumiu a coisa de um jeito que eu nunca esqueci. Ele disse: "eu te pago muito bem para você ouvir e fazer música o dia todo". Parece piada, e era literalmente a descrição do meu cargo. Mas ninguém te paga muito bem para ouvir música o dia todo por causa do seu gosto musical. Pagam porque você acumulou o repertório técnico que faz o seu ouvido valer dinheiro.
Se eu pudesse mandar um recado para o muleke da Jenifer com trastes de latão, seria este: o problema nunca foi a guitarra. Compre a melhor ferramenta que você conseguir, cuide dela, mas entenda que músico ruim em instrumento bom continua soando ruim. O investimento que rende juros é o que você faz em você mesmo, e ele é chato, é diário, e não tem foto bonita para postar.
Um grande abraço e bons sons.
Claudio Girardi
Fontes e dados
Trajetória. Brasil, com produção de artistas independentes e trabalho em publicidade; Londres, com o sampler "Pure Brazilian Beats" pelo selo inglês Zero-G; Angola, com trabalho junto a mais de quarenta artistas; Estados Unidos; retorno ao Brasil, com filmes e publicidade; início da Zooparky em 2016 e abertura do CNPJ da Zooparky Entretenimento e Produções Ltda em 2017.
Pure Brazilian Beats no catálogo da Zero-G: https://zero-g.co.uk/products/pure-brazilian-beats
Nota sobre as dez mil horas. O número acima é o meu próprio cálculo de tempo de estúdio ao longo dos anos, não a aplicação de uma regra. Vale registrar que a chamada "regra das dez mil horas", popularizada por Malcolm Gladwell, foi contestada pelo próprio pesquisador cuja obra a inspirou, Anders Ericsson, que argumentou que o número foi apresentado de forma simplificada e que o que importa é a natureza da prática deliberada, não a contagem de horas.
Nota editorial. O título original previsto no calendário editorial era "Da guitarra emprestada ao mercado internacional". Foi corrigido porque a primeira guitarra não foi emprestada: foi comprada com dinheiro de mesada e de presente de Natal, conforme o relato original no artigo "Eu já fiz errado".



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